Análogos de GLP-1R e inibidores de SGLT2: efeitos em inflamação, uricemia e gota

Por Thiago Ferreira

GLP-1R (receptor do GLP-1)

  • Expressão: células imunes, músculo, osso, sinóvia e cartilagem;

  • Efeito intracelular: a ativação do GLP-1R inibe as vias NF-κB/MAPK;

  • Consequência: reduz citocinas pró-inflamatórias (TNF-α, IL-6, IL-1β) e MMP-3/13; favorece a polarização de macrófagos M2.

SGLT2 (cotransportador sódio-glicose tipo 2)

  • Função fisiológica: principal proteína de reabsorção de glicose e sódio no túbulo proximal renal.

  • Ação dos inibidores de SGLT2 (iSGLT2, “gliflozinas”): bloqueiam essa reabsorção, gerando glicosúria e natriurese;

  • Efeito na uricemia: ao elevar a carga luminal de glicose e sódio, inibem transportadores de urato (sobretudo URAT1 e GLUT9), aumentam a fração de excreção de urato e reduzem o ácido úrico sérico (AUS).

Comparações entre classes

Versus iSGLT2, agonistas do GLP-1R (GLP-1Ra) tendem a ser neutros ou discretamente inferiores quanto a incidência/recorrência de gota.


Em algumas comparações indiretas, podem ser modestamente melhores que inibidores de DPP-4, mas não conferem proteção consistente contra gota.


Resumo: entre antidiabéticos, os iSGLT2 são os que exibem maior impacto hipouricemiante.

Meta-análise em rede (57 ECRs) – principais achados

Incluiu múltiplos iSGLT2: dapagliflozina, empagliflozina, canagliflozina, ipragliflozina, tofogliflozina, luseogliflozina e sotagliflozina, vs placebo e, em alguns estudos, em combinação a outros antidiabéticos.

 

Todos os iSGLT2 reduziram AUS; reduções mais consistentes com empagliflozina (10–25 mg/dia) e dapagliflozina (5–10 mg/dia).

 

O efeito ocorreu em DM2 e não diabéticos, sem diferenças relevantes entre esses grupos.

 

Houve tendência a menos casos de gota, sem significância estatística; maior sinal com canagliflozina 100 mg, empagliflozina 25 mg e dapagliflozina 10 mg/dia.

 

Sem relação clara dose-resposta dentro do mesmo fármaco.

 

Queda de AUS na faixa de 3–28%, inferior à obtida com hipouricemiantes dedicados (alopurinol/febuxostato).

Implicações práticas

Se já há indicação de iSGLT2 por benefício cardiorrenal/metabólico (com ou sem DM2), empagliflozina 10–25 mg ou dapagliflozina 5–10 mg podem oferecer bônus de redução do AUS;


iSGLT2 não substituem hipouricemiantes padrão (alopurinol/febuxostato) quando a meta de AUS e o controle da gota são prioridade;


A evidência não comprova redução estatisticamente significativa de crises de gota; alinhe expectativas e mantenha profilaxia/tratamento específicos quando indicados.

Referências

01. Bilgin E et al. Autoimmun Rev. 2025;24(9):103864. doi: 10.1016/j.autrev.2025.103864.


02. 2. Hu Q et al. Int J Clin Pharm. 2025 Jul 2. doi: 10.1007/s11096-025-01950-y.